09 – Pacífico Ribeiro *

Cadeira 09
Acadêmico Fundador: Pacífico Ribeiro
Patrono: João Bastos
Biografia do Acadêmico Fundador
Data de nascimento: 13 de outubro de 1918
Naturalidade: Jequié, Bahia
Profissão: Advogado
Em 1992 recebeu a comenda Dr. Cely de Freitas, pela Câmara de Vereadores de Jequié. Possui uma belíssima coleção de quadros a óleo sobre tela com temas de Jequié – antigo e atual – , que deseja vê-la exposta no futuro Museu Histórico e Escolar de Jequié.
Pacífico Ribeiro nasceu em Jequié, a 13 de outubro de 1918, onde estudou inicialmente e depois transferiu-se para Salvador, diplomando-se em Ciências e Letras no Colégio Ipiranga.
Em 1947 tornou-se bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade Federal de Direito da Bahia. Advogado militante por mais de 40 anos na capital e interior. De 1959 a 1961 foi diretor do Departamento de Terras do Estado da Bahia, e entre 1963/64 foi advogado do SUPRA (órgao do Ministério da Agricultura).
Como poeta, publicou (1962) o volume de sátiras poéticas Urtigas e malagueta (Motivos da Bahia), a que se seguiram O Meu Canto de Amor a Jequié (poesias, 1988, 2ª ed., acrescida de mais 45 sonetos e do poema Formação e emancipação de Jequié, (1997) e Sonetos Remanescentes (1991).
Como jornalista, colaborou com vários jornais do interior, da capital e do Rio de janeiro. Em 1992 recebeu da Câmara Municipal a comenda Dr. Cely de Freitas.
Bibliografia
- Urtigas e malagueta (Motivos da Bahia)
- O Meu Canto de Amor a Jequié (poesias, 1988, 2ª ed. 1997)
- Sonetos Remanescentes (1991)
Contato
Endereço: Rua Direita da Piedade, 45 – Ed. Duque de Widsor, 40070-190, apto. 511 Piedade, Salvador- Bahia
Telefone: 71 3329 3940
Biografia do Patrono: João Bastos
Foi JOÃO BASTOS, inegavelmente, quem criou, pela ordem cronológica, o primeiro jornal de Jequié, intitulado “O Literato”, vindo à luz mesmo antes da emancipação política deste município; órgão todo manuscrito e mural, noticioso e literário, que perdurou muitos anos, contando sempre com a acolhida e o interesse do povoado.
Naquele período de efervescências culturais e políticas que eclodiram em Jequié, JOÃO BASTOS fundou, juntamente com outros intelectuais, a exemplo de Lindolfo Rocha, José Alves Pereira, José Antônio Ribeiro Filho, Damião Vieira, João Carlos Borges de Sousa e outros, a “SOCIEDADE LITERÁRIA”, possuidora de uma biblioteca, em cuja agremiação ocorriam, semanalmente, à moda da época, tertúlias literárias, no intuito de aprimorar e expandir os conhecimentos culturais da região.
Ainda em companhia desses políticos e intelectuais citados, JOÃO BASTOS participou da fundação do “CLUBE UNIÃO”, sob a fluente liderança de Lindolfo Rocha, contando, também, com a participação de outros políticos, idealistas e progressistas, como Urbano de Souza Brito Gondim, Nestor Ribeiro, Tibério Reis, Manoel Olivais, José Curcino de Miranda, José dos Santos Silveira e demais abnegados compatriotas, tendo esse benfazejo Clube a finalidade precípua de defender a sociedade jequieense, no combate ao banditismo que assolava a região e, também, de lutar pelo engrandecimento, pela ordem e justiça, sobretudo pela emancipação de Jequié, que se consagrou, efetivamente, a 25 de outubro de 1897, cujo centenário fora festivamente comemorado, no ano passado, nesta cidade.
Como poeta, JOÃO BASTOS alcançou os mais altos vôos, no enlevo de suas musas e na expansão de seus infindos e aureolados sonhos de inspirado e talentoso vate lírico-romântico e, por vezes, parnasiano, como se observa, por exemplo, do seu magistral soneto, intitulado “DOR UNIVERSAL”, produzido em versos alexandrinos, contendo cesuras e perfeitos hemistíquios (como os exigia a escola clássica parnasiana francesa, bem assim, a brasileira). O soneto em apreço fora publicado em Jequié, no jornal “O Rurígena”, na edição de 15/10/1907, dedicado à memória do brilhante tribuno, poeta e jurista sergipano, FAUSTO CARDOSO, quando de seu assassinato, em praça pública de Aracaju, no Estado de Sergipe. É assim o soneto:
DOR UNIVERSAL
Os astros a brilhar com luz amortecida
derramam sobre o mar o pranto da tristeza!
E – murchas – a chorar, as flores da devesa
em vão pedem frescor à gleba ressequida!A montanha se curva e abraça comovida
a floresta – a tremer – convulsa, em febre acesa!…
E como que se escuta em toda natureza
da dor e da saudade a nênia dolorida!Um astro se apagou!… Irmão do Sol brilhante
partiu a iluminar desconhecido mundo
do Rei da criação ao poderoso nuto!De lágrimas se torna o pélago espumante!
Há gemidos de dor na báratro profundo!
O céu traja de gala… a terra veste luto!”É, sem dúvida, uma magnífica peça parnasiana, com lampejos condoreiros, dentro dos cânones que foram obedecidos pelos três maiores poetas do parnasianismo, no Brasil, quais sejam: OLAVO BILAC, RAIMUNDO CORREIA E ALBERTO DE OLIVEIRA. Todavia, JOÃO BASTOS cultivou, com mais leveza, a poesia lírica, espontânea, essencialmente romântica, sem, contudo, ter perdido o requinte da forma, lastreado pela correta metrificação (colocação das tônicas e das rimas, cadência e sonoridade dos versos, etc.), evitando a monofonia, a cacofonia e a homofonia da rima e do verso, principalmente, se se trata de soneto, – poesia de forma fixa, – que deve conter, ainda, a “chave de ouro”, no seu último verso, e não comportando, absolutamente, as alterações inconseqüentes que, hoje, se fazem por aí…
Vale salientar, que o sonetista, ou mesmo quem cultiva a poesia metrificada e rimada, seja esta em qualquer gênero poético definido, e até numa simples quadra, além de ser poeta, deve ser também um artista do verso!
Sobre o assunto, invoco o grande poeta GUILHERME DE ALMEIDA, que na sua conferência, proferida em 1947, na Faculdade de Direito de São Paulo, amplamente divulgada e publicada na época, e republicada em opúsculo, em 1990, com o título “CASTRO ALVES – O ARTISTA”, onde, assim, sabiamente, o define, afirmando, textualmente: “Um prodígio na arte de rimar – verdadeiro dicionário de rimas é a poesia intitulada Exortação. Imagine-se só o que representa isto: conseguir o poeta colocar numa quadra decassílaba nada menos que quatorze rimas!” E, em linhas anteriores, o mesmo conferencista declara: “E de Castro Alves eu quero dizer agora apenas isto: é o nosso maior artista do verso.”
Insofismavelmente, Castro Alves, em todos os gêneros poéticos por ele cultivados, deixa evidente que é um grandioso poeta e exímio artista do verso.
Ressalte-se, entretanto, que não sou contra a poesia moderna contida no verso livre, sem métrica e sem rimas, hoje tão usada pela maioria dos poetas brasileiros, difundida e louvada desde o “Movimento Modernista”, de 1922, eclodido em São Paulo, sob a liderança de Mário de Andrade; contanto que essa poesia inovadora possua conteúdo e sentido definido em suas imagens poéticas, bem assim sonoridade (não estou me referindo à métrica), até a admiro e louvo, a exemplo da poesia de Manuel Bandeira, Vinícius de Morais e de outros modernistas. O que abomino, pois para mim não faz sentido, é a poesia moderna desprovida desses mínimos e inerentes predicados.
Perdoem-me, caros confrades, esta digressão despropositada. Voltemos, então, ao meu Patrono – o poeta JOÃO BASTOS.
Tanto o seu soneto “Dor Universal” que já li, quanto o que vou ler a seguir, denominado “Sonhando”, este produzido em versos decassílabos, possuem, embora em diferentes estilos, os requisitos já mencionados, exigidos no soneto. O primeiro se destaca pela elevação de suas metáforas e pela força dos vocábulos, ali empregados com bastante propriedade; já o segundo, caracteriza-se, principalmente, pela simplicidade e leveza de suas imagens, revelando, tipicamente, a poesia lírica, espontânea, predominante na época do romantismo brasileiro. O soneto “SONHANDO”, publicado no jornal “O Rurígena”, na edição de 07.07.1907, fez parte de um torneio literário em que participou o poeta JOÃO BASTOS. Ouçamo-lo:
SONHANDO
Houve tempo, confesso, em que eu pensava
que todas as rainhas eram feias;
mas agora é que vejo quanto errava,
pois algumas são mágicas sereias!Deu-se a transformação quando eu sonhava
alta noite!… Envolvida em finas teias,
uma dessas visões eu contemplava…
e o sangue lateja-me nas veias!Ela estava num trono e coroada!…
Ajoelhei-me diante da Beleza!
Quis debalde abraçá-la… Era ilusão!…Acordando, com a mente esbraseada,
chorei… E senti n’alma tal tristeza,
que ainda hoje me dói o coração!E, agora, este lírico poema, também de cunho romântico, intitulado “NÃO CHORES, CORAÇÃO!”, publicado no jornal O Rurígena , de 20.10.1907, e escrito em versos decassílabos, contendo um refrão de seis sílabas, à moda dos poetas dos séculos XVII e XVIII, como os da Escola Mineira, a exemplo do poeta e inconfidente Tomás Antônio Gonzaga e, no Século XIX, usada, inclusive, pelo maior de todos, o genial Castro Alves, na sua poesia lírico-romântica, que é, a meu ver, a mais bela, com os poemas imortais de amor e infindos sonhos!
NÃO CHORES, CORAÇÃO!
O coração – eterno condenado – vive sempre a gemer dentro do peito de dor e de tristeza! É talvez porque nunca lhe foi dado do seu cárcere estreito ver o mundo e o fulgor da natureza! Não chores, coração! Em busca de prazer e da alegria não queiras sair nunca da prisão! Se visses o que vê-se à luz do dia de teres liberdade, arrependido, chorarias por tua escravidão! E, soltando um gemido, morrerias repleto de agonia!... Não chores, coração!Mas, meus caros confrades e ouvintes, é oportuno referir-me a uma sugestiva quadra de autoria de JOÃO BASTOS, publicada no “Rurígena”, na edição de 10.01.1908, em louvor ao grande RUI BARBOSA, quando este retornara, triunfante, da Conferência de Haia, deixando o mundo perplexo ante a sua fulgente inteligência e vasta cultura, aclamado e reverenciado pelos homens cultos e por todo o povo brasileiro, sendo a sua memória cultuada e venerada, inda mais agora que estamos a comemorar, neste mês de novembro de 1998, precisamente no dia cinco, os seus 149 anos de nascimento!
Miremo-nos, pois, nesta lição de humildade, de reconhecimento e sabedoria, contida nesses versos meritórios da lavra do poeta JOÃO BASTOS:
RUI BARBOSA, CURVADO E REVERENTE
EU ME DESCUBRO PARA TE SAUDAR.
FOCO DE LUZ, ESPELHO REFULGENTE
AONDE OS POVOS DEVEM SE MIRAR!…Era, assim, o poeta JOÃO BASTOS: talentoso, justo, oportuno, humano, espontâneo, fértil e vibrante em suas produções poéticas polimórficas, que foram publicadas, durante muitos anos, em Salvador e nos jornais do interior do Estado, e também no início deste Século XX, no conhecido e apreciado “Almanaque Luso-Brasileiro”, de grande circulação no Brasil e em Portugal.
Infelizmente ainda não tive a grata oportunidade de ter em mãos o acervo poético de JOÃO BASTOS, mas estou ansioso para encontrá-lo e obter maiores informações e deleitar-me, ainda mais, com a sua admirável poesia. É pena que o poeta não tenha deixado, reunida em livro, a sua obra literária. E causa-me grande tristeza constatar que um poeta desse quilate esteja, hoje, quase que completamente esquecido, pois os festejados autores de antologias e catálogos poéticos, antigas e novos, embora tenham se referido a tantos poetas que atuaram em nosso Estado, do século XVII ao século XX, citando, inclusive, vates de pouca ou quase nenhuma expressão literária, não tenham feito, entretanto, a mínima referência a JOÃO BASTOS ou à sua poesia, bela e perfeita, como demonstrado, simplesmente o ignoraram!
Somente agora a nossa Academia de Letras, na edição de seu livro “Cem Anos de Poesia e Prosa”, nela incluiu breves dados biográficos e dois sonetos de JOÃO BASTOS, estes que acabei de ler, que adquiri através de pesquisas, e cujas cópias xerografadas enviei, no ano passado, ao poeta Luís Cotrim, para o arquivo da Academia de Letras de Jequié.
Por tudo isso, meus caros confrades, reafirmo o que escrevi, no final do já citado artigo, nos seguintes termos: – Felizmente, hoje, essa dívida para com a memória do poeta JOÃO BASTOS fora, ainda em tempo, reparada pelos fundadores da Academia de Letras de Jequié, ao lembrar do seu nome e elevá-lo à condição de Patrono da Cadeira n.º 9, da qual, no momento, sou o seu humilde guardião, porém, com muito orgulho!
Discurso de posse do advogado e poeta PACÍFICO RIBEIRO, na Cadeira n.º 9 da Academia de Letras de Jequié, lido, a seu pedido, por seu amigo, confrade e escritor, EUCLIDES NETO, na Casa da Cultura Pacífico Ribeiro, no dia 27.11.98, em JEQUIÉ (BA).
Atualizado em outubro/2008
