19 – Deodato Astrê

Cadeira 19
Acadêmico: Deodato Astrê
Fundador: Eusínio Soares
Patrono: Adauto Cidreira
Biografia do Acadêmico
Data de nascimento: 23 de abril de 1936
Naturalidade: Ipiaú, Bahia
Profissão: Advogado e Jornalista
Biografia de Deodato Astrê…
Bibliografia
- …
Contato
Endereço: Rua Nestor Ribeiro, 919 Centro Jequié
Email: astreun@uol.com.br
Atualizado em março/2009Biografia do Fundador: Eusínio Soares
Falecido em: 2002
Nasceu em Boa Nova (BA), em 12 de outubro de 1916. Bacharel em Ciências e Letras pelo Colégio Ipiranga (Salvador) em 1936, ingressou no pré-médico no ano seguinte (curso que abandonou). Conselheiro e secretário de Wilson Novaes quando da fundação do “Jornal de Jequié” (1945), em seguida ingressou também no jornalismo, destacando-se como o mais persistente profissional da imprensa jequieense, em 50 e mais anos consecutivos de atividade. Colaborou com o “Jornal de Jequié” e foi um dos responsáveis pelo semanário “Cidade Sol”. Membro fundador da Associação Jequieense de Imprensa. Era filho do coronel Erotides Soares, um dos personargens marcantes da história jequieense. Participou da coletânea Jequié, poesia e prosa (Secretaria Municipal de Cultura, Lazer e Esporte, 1992).
Biografia do Patrono: Adauto Cidreira
Aos nove anos de idade, Adauto Cidreira afeiçoou-se ao cheiro de tinta, entrou a porta de uma redação e conseguiu uma vaga na tipografia. Com a vocação que lhe estava na massa do sangue e a prática adquirida em rápido aprendizado, recebeu o encargo de compor, paginar, revisar e imprimir um jornal. Por esse mesmo tempo, o menino de Camamu começou a sentir uma inquietude misteriosa e aflitiva. Tinha desejo de escrever e não sabia como principiar. Imaginou uma notícia de roubo. Tentou uma reportagem, mas sentiu que a sua propensão não cabia apenas nesses ramos de jornalismo. E foi, então, quando, acendendo nele o anseio ardente de consagrar-se à poesia, resolveu escrever um soneto. Depois do nascimento de sua musa, não foi mais possível separar o poeta do jornalista, que ficaram unidos para o resto da vida.
Colaborador de quase todos os jornais de Jequié, Adauto Cidreira foi aplaudido efusivamente pelo público leitor, até pelos seus adversários, porque, além de ter sido uma das expressões mais legítimas da imprensa interiorana, sua coluna apresentava um estilo substanciado, abordando temas históricos, políticos, econômicos e sociais. No jornal e na vida, representou um modelo de virtudes humanas. Poderia atravessar um atoleiro sem trazer dele um pingo de lama dos pés.
Lia muito, por isso conseguiu ilustração com toda energia do seu cérebro. E, muitas vezes, ao voltar da farra com o dia alvorecendo, mergulhava os olhos na leitura, tendo sido um verdadeiro reservatório de conhecimentos. Participou, no ideal e nas ações, de movimentos aqui iniciados em favor de regimes novos. Foi um jornalista brilhante, e, certamente, a mais desenvolvida inteligência de sua geração.
Tendo ao seu dispor um instrumento de divulgação, para a propaganda dos próprios méritos, nunca se prevaleceu dele. Ao contrário, procurava, por meio de gestos dignificantes, colocar em destaque ainda maior o seu grande valor, refletido no primor do seu sentimento. Foi um dos fundadores da República Estado de Sítio, uma pensão localizada na antiga Praça dos Tropeiros, hoje Praça da Bandeira, que foi animada de fantasiosa tendência anarquista, da qual saíram os libertários fundadores da extinta Associação dos Empregados no Comércio de Jequié, atualmente Sindicato da categoria.
A vitória sem esforço é um triunfo sem glórias, assim como a conquista só é comemorada e enaltecida quando resultante de um trabalho incessante e aprimorado. Vencer estimula e enobrece. Adauto Cidreira acompanhou o povo em todos os movimentos reivindicatórios. A conspiração dos que desejam a sujeição do Brasil ao poderio econômico, determinou, naturalmente, a reação. Por causa disso, Adauto Cidreira vestiu a camisa verde e empunhou a foice e o martelo, sendo preso e interrogado.
Trabalhar foi o seu lema. Passou por cima dos obstáculos, tranqüilo e confiante. Representou a expressão legítima do jornalista desassombrado. Filho de pais sem fortuna, mostrou, desde cedo, disposição para enfrentar as vicissitudes da vida. Aproveitando as oportunidades que lhe surgiam, chegou ao cume do jornalismo do interior. Dedicado inteiro à idéia de escrever, continuou a produzir. Subiu sem favor, pela própria tenacidade Foi um dos mais firmes exemplos de quanto pode a força de vontade, serena, determinada, de uma pessoa, quando ela quer superar dificuldades e se põe toda, com o seu idealismo e o seu coração, a serviço da liberdade.
Adauto Cidreira, ou antes, Aldo Luz, foi, assim, o expoente de periodista, obstinado, infatigável, e um boêmio na mais verdadeira acepção do termo, mas fazia boemia à sua maneira. Trabalhando e conquistando, dividia seu tempo entre os escritórios comerciais, as redações e os bares da cidade. Quando começou a produzir, todo conhecimento já estava reunido nele de modo misterioso, acumulado e armazenado. Em sua lembrança coisa alguma perdia o colorido, coisa alguma se confundia nem se corrompia, tudo estava bem ordenado, sempre prestes a ser divulgado.
Adauto Cidreira possuía uma visão extraordinária. Era como se fosse dotado da faculdade de ver claramente o que os outros não percebiam senão sob esforço mental. Autodidata, obteve uma erudição verdadeiramente enciclopédica. Tinha um impulso especial, seguia a ordem natural das coisas. E eis aí porque ele era tão zeloso no registrar os acontecimentos do dia-a-dia. Por causa disso os seu comentários se tornaram um dos maiores acervos da História de Jequié, que está fadado a desaparecer, se a inauguração do Museu continuar a ser protelada inexplicavelmente.
Como o vento que enfuna a vela e faz andar o barco, ele pôde transformar seus pensamentos em ações por meio de sua genialidade. O revolucionário que ele encarnava, entendia-se muito bem com a realidade dos fatos, e, pouco a pouco, identificou-se com a sua personalidade. Foi uma expressão das mais altas do jornalismo de sua época. Um talento criador que sonhava com um futuro melhor. No seu subconsciente, desenrolava-se a luta entre a revolta e a sensatez. Há poucos cronistas que tenham tanto atraído os seus leitores como Adauto Cidreira. Analisava o que sentia, e o que sentia dizia francamente. Graças à sua coragem e a limpidez dos seus artigos, para sempre ficaram registrados preciosos documentários para a posteridade. Sem ele, que foi admirável articulista, muitas informações importantes não seriam reveladas.
A sua imaginação ágil e penetrante o acompanhou até nas poéticas divagações. Os assuntos brotavam rapidamente da sua imaginação sob a forma de palavras, o que lhe permitia falar e escrever com extrema facilidade. Dirigiu a Rádio Bahiana, a primeira emissora de Jequié, instalada no coração da cidade, entregando-se à reorganização da ZYN-27 com a paixão, o entusiasmo, o desejo ardente de quem se quer exceder a si mesmo, fazendo obra semelhante àquela que já fizera na imprensa escrita. Eleito vereador, aprendeu com um desembaraço assombroso a solução de todos os problemas que afligiam a população da ex-Meca do Sudoeste. Como presidente do Legislativo assumiu a Prefeitura e saiu-se brilhantemente.
Àqueles que desde crianças sentem fome e que passam pela vida curvados ao jugo da necessidade, dirigiu palavras de consolo e compaixão, porque o instinto selvagem será sempre mais poderoso entre os homens que o amor e a bondade. Para ele se voltava a admiração dos injustiçados com a alma aberta a toda mensagem de libertação. Assim neste fim de século, muitas recordações cheias de gratidão, volvem-se para ele. Incansável, escreveu até que a caneta lhe caiu da mão que se esfriava. Adauto Cidreira, a quem a providência impôs a missão de combater pela justiça até o último instante, repousa na santa paz, no mundo da perfeição.
Quando o coração lhe reclamou uma companheira, escolheu a que o fez feliz. Contando com uma individualidade das mais fortes elaboradas na oficina do Criador do universo, ensinou a todos até onde pode chegar o trabalho eficaz e honesto de cada um, quando um vínculo ético constituído pela fraternidade unifica cada agrupamento humano. Denunciou todos os erros sociais e toda a espécie de fraude que arrebata aos humildes o necessário, assim perpetuando a desigualdade que existe no mundo, apenas para manter um pequeno número de protegidos na posse de seus bens. Olhou para os pequenos, um bando de joões-ninguém vivendo, trabalhando e morrendo sob o chicote impiedoso da sorte. Enquanto o tempo passava, ele se ia tornando cada vez mais sarcástico e espirituoso, mas nunca se esqueceu de que há na terra milhões de seres humanos que sofrem, sem casa, sem terra, sem emprego, sem pão. Atirou-se à defesa das causas justas que possibilitam a todos oportunidade adequada a viver dignamente. O grande livro em que aprendeu foi o da experiência. Mentalidade prodigiosa, escreveu sempre, com desassombro e brilho invulgares.
Chegou à conclusão de que a vida não é um divertimento, mas uma tarefa muito pesada. No entanto acreditava que havia felicidade na terra para quem fosse compreensivo. Viveu preocupado com o amanhã, no qual enxergava uma sociedade onde “a riqueza tem deveres formidáveis e a pobreza direitos imprescritíveis”.
Desejou atar as feridas do povo, para suavizar os sofrimentos dos desamparados. Dizia que o mais importante é falar menos e fazer mais e o que se precisa é de maior ordem, mais consciência, maior respeito mútuo, mais honestidade, mais observância da lei, da qual depende a existência e o desenvolvimento da democracia. Está inteira, em toda a sua grandeza, a figura excepcional de Adauto Cidreira, cidadão que esteve a serviço da coletividade, das causas essenciais de todos, o que fez com lisura, desambição e conhecimento de causa, com as qualidades, de há muito comprovadas, de um articulista de alto nível.
Patrono da cadeira n.º19 da Academia de Letras de Jequié, o imortal Adauto Cidreira glorifica a inteligência que floriu e deu frutos. Honesto e laborioso, não repudiou a humildade passada nem lisonjeou a riqueza para subir e triunfar. Toda a sua vida foi feita de uma perfeita harmonia. Buscou conciliar a legalidade com as conquistas sociais reguladas pelo direito, para que todos possam desenvolver livremente as suas potencialidades materiais, intelectuais e espirituais. Não há dúvida de que, quando chegar a fase pela qual ele lutou, a sua memória dará a medida exata de suas idéias renovadoras, porque não corrompeu a sua pena, o seu estro, o seu caráter. A sua cultura, bebeu-a nas fontes mais límpidas, pelos caminhos mais dignos e justos.

