Discurso de posse

DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA DE LETRAS DE JEQUIÉ
ELEITA EM 06 DE AGOSTO DE 2012
EMPOSSADA EM 28 DE NOVEMBRO DE 2012
Prezados senhores e senhoras, queridos familiares, caros amigos, minha grande família de Jaguaquara, saúdo-os em nome de meu pai Senhor Helenísio Martins dos Santos e de minha mãe Senhora Ilza Sampaio dos Santos.
Autoridades presentes ou representadas, honrada mesa, distintos confrades, distintas confreiras, saúdo-os em nome do notável presidente da Academia de Letras de Jequié, confrade Adilson Gomes.
Boa Noite!
Oriento minha palavra, primeiramente, pelo imperativo do apóstolo Paulo: “sede agradecidos!” (Colossenses 3:15b). Porque vivo, a priori, o sentimento de gratidão, externo-a aos meus confrades e confreiras pela eleição do meu nome, no dia 06 de agosto do ano em curso, para ocupação da cadeira de nº 20 na insigne Academia de Letras de Jequié. Rendo-me ao exagero poético de Stela Câmara Dubois: “que me falte a luz dos olhos, mas não me falte a gratidão”. Muito obrigada!
A cadeira de nº 20 tem, para mim, um significado todo especial. Não se trata apenas de uma cadeira na Academia de Letras de Jequié, mas a Cadeira fundada pelo acadêmico Manoel Sarmento, cujo patrono é Juvêncio Menezes.
Citá-los, neste instante, ativa minha memória a trazer à consciência o que gera esperança. Associo o meu querer ao querer profético de Jeremias nos anos 580 a.C.: “Quero trazer a memória o que pode me dar esperança” (Lamentações de Jeremias 3:21).
Juntamente com a vida do acadêmico Manoel Sarmento e do patrono Juvêncio Menezes, trago à memória a Grécia Antiga, anos de 428 – 348 a.C., mais precisamente, os jardins de Akademus onde Platão ministrava palestras aos seus discípulos e criava a Academia.
Foi o jardim de Akademus que, anos mais tarde, em 1635 d.C., inspirou a instauração da Academia Francesa por Richelieu durante o reinado de Luís XIII.
Duzentos e sessenta e dois (262) anos depois de fundada a academia francesa, os sempre lembrados: Machado de Assis, Olavo Bilac, Graça Aranha, Rui Barbosa, dentre outro quarenta (40) imortais, criaram a Academia Brasileira de Letras (1897).
E, sob a inspiração da Academia Brasileira de Letras, bravos cidadãos Jequieenses fundaram a Academia de Letras de Jequié, em 20 de junho de 1997. Evidentemente a Cidade Sol tinha e tem vocação para as letras e não foi sem razão que seu poeta Wilson Novais, patrono da cadeira nº 2, fundada pelo confrade Ivonildo Calheira, quando da escrita da letra do hino municipal, pontuou a Cidade Sol como “presente redourado sob um facho de luz”.
Jequié, minha terra natal; Jequié de presente redourado, és espaço legítimo para o cultivo das letras.
Diferentemente do que dizia Pórcio Festo (governador da Judéia nos anos 60 – 62 d.C.) as muitas letras não “fazem delirar” (Atos 26:24). Antes, são as letras que elucidam o pensamento e produzem homens e mulheres capazes de contribuições efetivas para a solidez da sociedade.
Sou testemunha das contribuições inestimáveis que meus ex-professores, versados nas letras, ocupantes de cadeiras na Academia de Letras de Jequié, deram à minha vida e a tantas outras vidas: professora Laura Caetano, professor Raimundo Matos, professor Álvaro Veiga, professora Diva Gondim e o saudoso professor Luís Cotrim, fundador da Cadeira nº 1 da ALJ, que hoje habita a eternidade, a quem homenageio enviando uma “rosa com amor”.
Da mesma forma sou sabedora das contribuições que meus colegas de magistério, igualmente impactados pela magia das letras, dão para a formação de uma sociedade que se quer nova por meio de novos homens. Colegas de corredores de escolas e universidade, meus confrades e confreiras: Lélea Amaral, Jorge Barros, Domingos Ailton, Márcia Auad, Reinaldo Pinheiro, Antonio Duarte, Zilda Freitas, Márcia Rúbia, Adilson Gomes, Maria Afonsina Ferreira e Jussara Midley.
Sempre os percebo em Paraíso quando os vejo entre livros. Parecem, por vezes, em comunhão de idéias e de sentimentos com o poeta José Jorge: “Onde houver livros, tenho aí meu Paraíso”.
Confreiras e confrades, oxalá a proximidade com as letras (livros) nos anime na construção da sociedade sonhada por Platão (428 a 348 a.C.) na Grécia, retratada na República; imaginada por Thomas Morus (1478 a 1535) em Londes, descrita na Utopia e perseguida por Paulo Freire (1921 a 1997), aqui, no Brasil, sintetizada no último parágrafo da Pedagogia do Oprimido: “Fé nos homens e fé na criação de uma sociedade em que seja menos difícil amar”. Sim. Nossa ingenuidade e romantismo não nos impossibilitam de perceber o fato de que sempre haverá dificuldades para o amor.
******************
Neste momento de posse, é consuetudinário recordar o predecessor, cabe-me recordar o professor Manoel Sarmento, mas permitam-me recordá-lo, não apenas por dever, antes por apelo do meu coração e da minha história.
Devo tornar público o fato de que sucedê-lo na cadeira nº 20 foi uma das fortes motivações que me fez afluir a uma vaga na Academia de Letras de Jequié.
Professor Manoel Sarmento, jaguaguarense, nascido em 21 de julho de 1956, professor titular da UESB – campus de Jequié, doutor em lingüística. Publicou artigos em revistas científicas, foi músico nato e faleceu exatamente há dois anos. O mundo o perdeu em 28 de novembro de 2010. Hoje, 28 de novembro, é seu aniversário de despedida.
Meu professor Sarmento despertou em mim o gosto pelos estudos da linguagem. Foi ele quem me apresentou o trabalho do mestre genebrino (Genebra – Suíça) Ferdinad Saussure. Meus interesses investigativos dividem-se em antes e depois do meu encontro com Sarmento. Sua vida foi complexa, como complexo é todo ser humano intenso e inteiro. Soube ser simples sem deixar de ser rico; foi leve na forma de andar e sorrir, mas denso nas elaborações
cognitivas. Uma alma sensível ao ponto de chorar porque um aluno não entregou o trabalho no prazo de fechamento das cadernetas e foi reprovado.
Ao ser eleita para a cadeira nº 20, minha cunhada e amiga Márcia Lima, utilizando-se do texto de Neida Rocha, ensinou-me que ser imortal é:
“…ter a consciência crítica, em meio às angústias humanas… Ser Imortal é viver a plenitude do instante… Ser Imortal é perceber a efemeridade da vida… Ser Imortal é viver no umbral da existência… sem assistir somente a vida passar e acima de tudo é ficar registrado no coração e na memória dos que nos são caros.”
O mestre Manoel Sarmento autorizou-se, sem palavras, a ficar registrado em muitos corações e em muitas memórias, por isso, imortal.
Embora seu corpo tenha se despedido há dois anos (28 de novembro de 2012) e deixado um vazio imenso, como imenso era seu tamanho. Os seus ensinamentos em corredores, em jardins, em filas de banco não se despedem nunca, porque têm força de eternidade.
Valeu, meu mestre!
O atual presidente da Academia de Letras de Jequié, o confrade Adilson Gomes, quando de sua posse, pediu permissão para concluir seu discurso com palavras de Machado de Assis, membro fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras. Sigo o mesmo protocolo. Desta feita, peço permissão para usar as palavras de uma mulher, atual presidente da Academia Brasileira de Letras. Refiro-me à escritora Ana Maria Machado:
“É que lá longe, quando tudo começou, nada faria supor que um dia os caminhos de minha vida me trouxessem a ocupar uma Cadeira nesta Casa.” Ana Maria Machado referia-se à Casa de Machado de Assis. Refiro-me à Casa de Manoel Sarmento.
“Dá vontade de [concluir] como um cantador popular [rural], que toma sua viola e canta em feitio de oração:
À vida e a todos eu devo
por esta hora encantada.
Não tenho como pagar
tamanha glória alcançada.
Só me resta agradecer,
os olhos aos céus volver,
e graças a Deus render.
A todos, muito obrigada.”
Sonilda Sampaio Santos Pereira
Jequié, 28 de novembro de 2012.